Introdução
Há 70 anos a Organização dos Direitos Humanos promulga a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) contendo 30 artigos. No Brasil os direitos humanos estão garantidos na constituição desde 1988 (três anos após o término da ditadura militar), mas esses direitos passaram e passam por momentos conturbados. A Anistia Internacional (“um movimentos que se mobiliza para criar um mundo em que os direitos humanos sejam desfrutados por todos.”), liberou um relatório com informes sobre o estado dos direitos humanos no mundo em 2016/17, e percebemos como o quadro de violação desses direitos ainda está tão agravante no país em todas as áreas que se enquadram os Direitos Humanos: civis, políticos, econômicos, sociais e culturais.
Vemos que nos últimos anos essa Declaração no Brasil vem sendo constantemente violada, em diversas situações, como quando em manifestações, estudantes são arbitrariamente agredidos por policiais, em que um museu privado é obrigado cancelar uma exposição por acusações de pedofilia, onde uma bandeira com dizeres “Direito UFF Antifascista” com a acusação de que “incitava a propaganda política irregular e negativa”, e um movimento intitulado de Cidade Linda em São Paula, apaga vários grafites e pichações cobrindo-os de cinza; desse modo contrariando o artigo XIX da DUDH que diz: “Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras”.
As intervenções urbanas originadas no movimento Hip-Hop como o grafite e o picho sempre dividiram opiniões, de um lado temos indivíduos oprimidos, que enxergam nessas linguagens uma forma expressar nos espaços públicos, seu descontentamento através de marcas; e do outro lado vemos pessoas declarando que acham desrespeitoso, um vandalismo a um patrimônio custeado por dinheiro de impostos, tentando desvalidar toda mensagem inerente.
Diferentemente do grafite, que tem uma estética mais aceita como arte, com figuração, cores chamativas e um aprimoramento técnico aparente; as pichações têm um visual mais agressivo, algumas vezes sendo ilegíveis, mas sempre aparecem como uma marca social da insatisfação de grupos marginalizados, que fazem da pichação um rito ilegal de crítica, sem permissão, anônimo, trazendo uma reflexão acerca da política, sistema e sociedade como um todo.
“Estes sujeitos ou grupos, marginalizados pela suas condições sociais, respondem a esta marginalização por meio da pichação urbana, enfocando o ato e não o trabalho final.” (Furtado, 2012)
Conceito criativo
O cartão-postal é uma narrativa visual utilizada pelo mercado turístico, com o objetivo de transmitir percepções de uma paisagem, resumindo um local turístico a uma imagem, essa representação se restringe a uma beleza estética superficial e mercadológica, assim se abstendo de qualquer discussão de caráter social.
Em nossas fotos procuramos trabalhar esse conceito do cartão-postal, fazendo uma espécie de sátira a essa estética especifica, apresentando um olhar alternativo à cidade de cachoeira, de beleza idealizada como cidade turística, sobrepondo a paisagem e arquitetura com as demandas de indivíduos ofuscados por essa idealização.
Dessa forma encontramos no CAHL (Centro de Artes Humanidades e Letras) da UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia), um centro de ciências humanas e artes, que fomenta a discussão e reflexão acerca de questões inerentes a nossa realidade; Desse modo podemos perceber a liberdade de expressão em pleno exercício, através das pichações nos muros do CAHL, que são vozes oprimidas e silenciadas pelo sistema, que constantemente sofrem pressões da sociedade, sendo representados por grupos como LGBT, movimento negro e grupos feministas, que encontram vazão nesse meio marginalizado que é o picho.
Assim durante o processo de construção dessas fotos, buscamos ampliar essas vozes, evitando qualquer tipo de julgamento com relação as pichações e até mesmo ao ato de pichar, deslocando-as desse suporte que as limitam, as paredes, e fazendo-as ressoarem, ecoarem, sobrepondo- se a paisagem e arquitetura, abordando esse outro lado do cartão postal.
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FURTADO, J.; VIEIRA ZANELLA, A. Graffiti e Pichação: Relaçõs estéticas e intervenções urbanas – DOI 10.5216/vis.v7i1.18123. Visualidades, v. 7, n. 1, 19 abr. 2012.
(https://anistia.org.br/wp-content/uploads/2017/02/AIR2017_ONLINE-v.2-2.pdf)